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Fragmentos Draconianos N12: Do Céu, da Terra e da Humanidade


 Eu olhava friamente aquele homem nos olhos, jogado à minha frente. Seu semblante de terror tinha um motivo: ele havia desviado parte do negócio, achando que ficaria rico suficiente para sumir do nosso radar. Coitado. Ninguém escapava de nós.

– Por favor, senhorita Yanqi! Poupe minha vida! – ele implorava.

Ele já estava condenado. Isso era um fato. Se eu o deixasse ir embora, Ying, nossa segunda irmã, pegaria aquele pobre coitado e, se, por sorte, ela o deixasse ir embora, a primeira irmã, Yu, não o perdoaria e, talvez, nem a nós. Não era a toa o seu apelido de Manta-Diabo. Yu, com aquele rostinho doce, só enganava quem não a conhecia. E nós éramos suas irmãs.

– Senhorita, por favor, eu vou recuperar o dinheiro – ele continuava.

O que passava pela cabeça de um contrabandista, que nos conhecia e trabalhava para nós, para nos roubar? Ele sabia o seu destino quando fosse pego. E era realmente isso: “quando”; porque ele jamais conseguiria se esconder de nós.

– Senhorita, por favor, eu trabalho para vocês há anos... Por favor, poupe minha vida. Eu tenho esposa e duas filhas... – ele seguia implorando.

– Eu vou lhe dar uma escolha – disse a ele – E vou fazer esse favor, por trabalhar para nós há anos...

– Eu aceito! O que for! – ele gritou.

– Não ficaria feliz tão rápido... – ri de seu desespero – Você pode escolher nas mãos de quem vai morrer... Nas de Ying, de Yu... ou nas minhas.

Ele ficou gelado. Senti seu coração bater mais forte e o seu medo se espalhar por toda aquela sala escura, suja, e pouco iluminada pela solitária lâmpada que balançava sobre nós.

– Eu prometo que cuidaremos de sua esposa e filhas – disse para confortá-lo naquela hora difícil – E você sabe que nossas promessas são inquebráveis.

Cuidaríamos delas como se fossem nossa família. Nós, as SanJièmei, nunca quebrávamos uma promessa. Nossa palavra era mais valiosa que nossas próprias vidas.

Ele olhou para os lados, assustado. Podia saber que em sua cabeça confusa ele pensava em fugir. Estava tentando traçar uma rota. Coitado desesperado.

– Se eu fosse você – eu disse – Escolheria morrer nas mãos de Ying. Sabe como ela é impaciente e gosta de terminar as coisas muito rapidamente. E, também, ela é muito gentil e bonita. Provavelmente a mais bonita de nós três. Pelo menos morreria com uma visão rápida do paraíso...

– Por favor... senhorita... – ele voltou a implorar.

– Já eu... – ri – Sou muito paciente... e gosto de sentir o sabor do medo e da dor de quem cai nas minhas mãos... – Passei o dedo em sua testa, limpando o suor que escorria – Então eu não me escolheria...

Ele baixou a cabeça e começou a chorar. Tinha se entregado. Desistido.

– Mas... – eu levantei sua cabeça pelo queixo – Eu com certeza jamais decidiria por morrer nas mãos de Yu... Você deve saber como ser eletrocutado até a morte pode ser terrível. O desespero de quem morre nas mãos dela parece não ter fim. Deve ser uma eternidade de dor e terror.

Um dos meus guardas se aproximou e, inclinando, disse-me ao ouvido:

– Senhorita Yanqi, a moça que veio lhe ver ontem está aqui. Ela quer vê-la novamente. Disse que trouxe ajuda...

Suspirei desanimada. Aquela execução teria que esperar.

– Amarrem-no e deixem-no preso – ordenei – Depois cuido dele.

Segui para a porta e pelas escadas de volta à minha casa noturna.

Shenzhen era uma metrópole muito visitada por pessoas do mundo todo, mas aquela garota petulante era alguém que, de alguma forma, fiquei muito feliz em ter conhecido. Ela tinha um fogo nos olhos que via em poucas pessoas. Estava atrás de um artefato muito raro e poderoso e, eu, claro, podia ajudá-la, pelo preço certo.

– A rainha aqui está de volta – ri, abrindo os braços, ao vê-la me esperando em minha mesa particular dentro da casa noturna – Em que posso ajudá-la dessa vez? – perguntei.

Com a casa cheia e a música alta, poderíamos conversar a vontade.

A garota, sentada com certa impaciência, tinha ao seu lado outra jovem, muito branca, de cabelos loiros e olhos azuis. Ambas se contrastavam, pois a garota com a qual já havia conversado tinha um aspecto tal como uma indígena das Américas, com seu cabelo liso, preto, a pele em um tom bronze avermelhado sedoso e os olhos escuros. Ambas eram de uma beleza especial.

– Essa é SeraBee – disse a garota que eu já conhecia – Ela vai ir junto...

– Mariana... – a jovem chamada SeraBee, assustada e desconfortável, parecia não confiar muito em mim – Tem certeza que é seguro ir com ela?

– Você não confia em mim? – ri – Eu sou a pessoa certa para esse negócio. Estilo original, bebê – arrumei minha jaqueta – Você vai adorar minha companhia.

– Mariana... – SeraBee continuou – A SeongJa disse que ouviu histórias terríveis sobre as SanJièmei. São da Tríade!

Não aguentei a ingenuidade e soltei um riso alto.

– Não temos nada a ver com a SanHéHui, bebê – gargalhei – Nosso Clã opera independente. Há respeito mútuo entre nossas casas, entretanto. Porém, nosso poder é algo fenomenal demais para se comparar com qualquer arma deles.

– Minha outra amiga, que não veio, disse que vocês odeiam os Protetores tanto quanto nós... – disse Mariana – Para mim isso basta.

Os Protetores eram uns vermes. Tinham muito poder e se vangloriavam disso. Nossas habilidades, herança do nosso Clã, tinham chegado a nós em uma sucessão de batalhas sobrevividas contra eles. Nós, as SanJièmei, as três irmãs, éramos tudo o que restava do outrora glorioso e secreto Clã das Flores.

Nosso maior tesouro, o Manual da Mestra YaoYue, era para nós a única fonte de sabedoria e conhecimento sobre nossa Arte. E, claro, muitas vezes os Protetores tentaram destruí-lo, no intuito de por fim de vez à nossa linhagem.

– Nós os odiamos com toda a nossa alma – cuspi com raiva.

– Então podemos ir? – perguntou Mariana levantando-se, impaciente.

Acenei vagarosamente com a cabeça, concordando.

Fazia tempo que não partia para uma aventura daquelas.

– Mas antes... – eu levantei o dedo – Precisamos fazer uma parada em Shanghai...

– Para que? – perguntou Mariana.

– Para que minha irmã Ying se junte a nós e, depois, vamos buscar Yu – respondi – Nós três vamos com vocês.

Elas se olharam e concordaram. Mariana mais que SeraBee, que ainda não estava muito confiante com nossa ajuda.

Então, depois de ajustarmos alguns detalhes, assim que saímos em direção à porta, um dos meus guardas correu até mim.

– Senhorita Yanqi – ele me chamou – O que vamos fazer com o contrabandista?

Não podia deixá-lo lá, jogado como um animal amarrado e enjaulado. Havia prometido cuidar de sua família e o faria; porém como sairia em negócios com aquelas duas jovens, não poderia continuar minha execução planejada. Assim, tomei uma decisão por mim mesma. Coloquei os dedos, indicador e médio, na minha cabeça, como se fossem uma arma de fogo e soltei:

– Pow!

Ninguém traía as SanJièmei.

 

A Saga Draconiana – Fragmentos Draconianos

TAGS: Dragão, Dragões, Fantasia, Literatura Fantástica, Drakkar

A. G. Olyver


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