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Fragmentos Draconianos N11: A Nova Rainha

Aquele era o momento que eu esperava por muitos anos.

Nossa Rainha Leonesa tinha se unido ao Todo havia três dias e, naquele instante, as minhas irmãs Leoas preparavam a Coroação da nova Rainha: eu.

Por muito tempo estudei sob a proteção e a sabedoria de nossa Rainha Leonesa e aprendi dela os níveis mais altos do Rugido de Sekhem. Dentre as Leoas, não havia nenhuma mais hábil e poderosa do que eu; pois conhecia os detalhes de tudo o que se relacionava aos belíssimos Antigos Mistérios da Ordem de Sekhem. Eu conhecia a teoria por trás do poder do Olho de Rá como se eu mesma o possuísse.

– Beatrice – chamou-me uma de minhas irmãs Leoas – Chegou nosso momento... Vamos?

Inspirei fundo, estufei meu peito e segui com ela.

No salão principal, onde seria feita a coroação, somente poderiam deliberar as três Leoas mais velhas que, claro, já haviam feito o juramento de coroar a próxima Rainha Leonesa, assim abdicando elas mesmas da Coroa.

Por mais que, oficialmente, ninguém soubesse quem seria a próxima Rainha, já que era uma decisão feita pelas três mais velhas, todas nós sabíamos que eu era a preferida a ser coroada e que, certamente, seria assim. Eu tinha o apoio de todas as minhas irmãs Leoas, inclusive da Rainha Leonesa anterior. E, mais que isso, dentre todas as irmãs ali presentes, somente eu e mais duas Leoas havíamos construído completamente nossos Corpos Solares, requisito fundamental para ser Rainha.

Assim que chegamos ao salão principal, todas nós entoamos nosso rugido de ordem, cruzando os braços sobre o peito e, em seguida, descendo as mãos em forma de garra ao lado do corpo.

– Hu-Ha-Hoar! – nós rugimos.

As três irmãs mais velhas iniciaram a ritualística para a invocação do poder da antiga Rainha, cujo corpo descansava sobre o altar principal à nossa frente e, posteriormente, seria levado à Abidos para seu enterro junto com os corpos de nossas Rainhas anteriores.

O idioma usado nas invocações, a forma mais arcaica do egípcio, remontavam a antiguidade de nossa ordem, fundada por Neithhotep, mas inspirada nos Mistérios transmitidos por Órix: O primeiro ser humano a dominar o Sekhem, a Essência Primordial Caótica.

Todas nós nos sentamos em posição de Contemplação, em um semicírculo ao redor do altar, e removemos nossas Garras de Sekhmet. Então passamos a infundir nosso Sekhem em todo o ambiente, criando um espaço de perfeição, para que o poder da Rainha pudesse ser transmitido de forma sublime.

Conforme o ritual se estendia, os nomes de todas as nossas Rainhas passadas foram invocados para que abençoassem a nova Rainha e, em determinado momento, o nome da escolhida foi pronunciado.

– E... – começou a irmã mais velha – sob os auspícios da Deusa Sekhmet, a Vingadora de Rá, a própria Essência Leonina que provém do Caos Primitivo antes da criação, em frente às memórias de nossas gloriosas Rainhas passadas, o Olho de Rá escolheu sua companheira.

Meu coração disparou. Estava nervosa. Seria uma responsabilidade incalculável, mas eu estava à altura, pois havia sido iniciada nos Antigos Mistérios da Ordem de Sekhem aos sete anos e fazia quinze que eu me dedicava com todas as minhas forças àquela Ordem.

– Esta que vai nos guiar de hoje em diante... – continuou a irmã mais velha, tomando em mãos uma pequena tigela – primeiro precisará passar pelo Duat e enfrentar os mais terríveis mistérios e perigos do mundo sombrio. E, retornando dele, com seu Corpo Solar resplandecente, será então unificada em glória com o poder da Rainha: O Olho de Rá.

Para que pudéssemos desenvolver nossos Corpos Solares, era essencial passar pelo ritual corriqueiro de Morte e Ressurreição. Nós éramos colocadas em um estado de quase morte e, vagando pelo Duat, passávamos por certos obstáculos mais simples e, retornando ao nosso corpo, construíamos mais um pouco do nosso Corpo Solar. Porém, era claro que aquela última viagem ao Duat, o submundo mais denso da existência, em nada se comparava com nosso ritual de Morte e Ressurreição. Era um desafio extremo. Mas, mais uma vez, eu estava a altura daquele feito. Sabia o que fazer.

– Levante-se e venha fazer sua viagem... – disse a irmã mais velha, chamando a próxima Rainha, fazendo meu coração disparar violentamente – ...Layla.

Meu coração parou em um gelo terrível. Aquilo não podia ser.

– Não! – gritei de forma impulsiva.

Todas me olharam assustadas.

Eu devia ser a Rainha, não Layla. Layla havia, claro, desenvolvido seu Corpo Solar, mas não era poderosa como eu; não tinha o mesmo conhecimento que eu. Ela não estava à altura de ser a próxima Rainha Leonesa. Eu estava.

– Você não concorda com a nossa decisão, Beatrice – a irmã mais velha me inquiriu.

Olhei para Layla. Aquela árabe ingênua não tinha o que era necessário para liderar aquelas Leoas. Eu, naquele instante, queria arrancar aqueles olhos negros com minhas próprias Garras de Sekhmet.

– Eu devia ser a Rainha – levantei-me falando alto – Layla não é poderosa suficiente; ela não é capaz de liderar nossas irmãs. Eu sou! – berrei batendo no peito.

– O que você acha, Layla? – a irmã mais velha perguntou a ela.

Layla se levantou e me olhou nos olhos. Parecia estar com pena de mim, aquela maldita.

– Se for do desejo da Ordem... – ela disse – Eu não me importo de abdicar da Coroa em prol de outra irmã Leoa...

Finalmente alguma lucidez naquelas cabeças. Tudo estava voltando aos eixos.

As três irmãs mais velhas voltaram-se umas paras as outras e começaram a discutir baixinho. Naquele momento elas eram o poder máximo da Ordem, até que a nova Rainha fosse coroada.

– Beatrice... – a irmã mais velha virou-se para nós – Nós três, sob os poderes absolutos que nos são conferidos nesses três dias de transição, decidimos, por unanimidade, que a nova Rainha Leonesa continua sendo Layla e que você está expulsa da Ordem de Sekhem.

Fiquei em choque.

Um silêncio tomou conta daquele lugar e eu não sabia o que fazer. Apenas o medo subia pela espinha como um escorpião escalando uma rocha na noite fria do deserto.

– Por quê? – balbuciei assustada.

– Porque uma Rainha, mais do que ter poder, precisa ter um bom coração, calma e pureza de sentimentos – disse a irmã mais velha – E você não tem isso. Você é vil, egocêntrica, presunçosa e, isso tudo a torna extremamente perigosa para a nossa Ordem... – ela levantou a mão – Leoas!

Todas as Leoas colocaram suas Garras de Sekhmet de volta e se levantaram, viradas para mim.

Ser expulsa da Ordem de Sekhem era uma forma bonita de dizer que eu seria executada; pois nosso conhecimento não devia jamais deixar a Ordem. Era vital mantê-lo longe do mundo.

Mesmo eu sendo a mais poderosa dentre todas elas, não seria capaz de enfrentá-las e sair com vida. E, mais do que isso, não queria ferir minhas irmãs. Queria provar a elas que eu era a melhor escolha para liderá-las. E, sendo assim, só me restava fugir, antes que fosse tarde demais.

– Eu amo vocês... – eu disse, explodindo todo o meu Sekhem acumulado, destruindo meu Corpo Solar.

Com aquele poder todo sendo transferido para o plano físico, eu me movi para fora de nosso templo escondido sob as areias do Planalto de Giza, antes que qualquer uma de minhas queridas irmãs Leoas pudesse sequer ver para onde eu estava indo.

Assim, fugindo como uma traidora, cuja única vontade era liderar nossa Ordem para a glória, eu segui pela escuridão do mundo, evitando ser descoberta, reconstruindo, ano após ano, meu Corpo Solar, e tentando desenvolver por mim mesma o poder do Olho de Rá, acessando os poderes mais complexos do Caos Primordial e, foi então que eu o olhei nos olhos, e ele me olhou de volta.

 

A Saga Draconiana – Fragmentos Draconianos

TAGS: Dragão, Dragões, Fantasia, Literatura Fantástica, Drakkar

A. G. Olyver

 


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