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Fragmentos Draconianos N10: A jovem da Flor de Sino

 

Aquela pequena azarada não sabia sequer andar direito. Como poderia se tornar uma boa Oiran?

– Ande direito, sua bastarda! – gritei para ela.

A cada geração que passava, parecia-me que as novas Kamuro tinham menos e menos tato para aprender a etiqueta necessária para, um dia, com alguma sorte, tornarem-se Oirans a altura do meu estabelecimento.

– Senhora... – chamou-me Tsuka, a Oiran responsável por aquela desajeitada Kamuro.

– O que houve, Tsuka? – cuspi, enraivecida por sua negligência em ensinar aquela ínfima desgraçada o mínimo dos modos exigidos pela minha casa.

Eu herdara aquele estabelecimento de minha mãe. Era a mais importante Casa de Cortesãs do distrito Yukaku. E, em sua época, aquele distrito da luz vermelha possuía uma notoriedade e prestígio insuperáveis. As mais altas cortesãs de nossa casa, dentre todas as Oirans, eram as Tayu. E, na época de minha mãe, praticamente todas na casa possuíam esse prestigioso título. Porém, com o aumento da prostituição barata, a procura pelas minhas Oirans havia caído consideravelmente.

– Senhora... há um homem que procura a dona da casa... – disse Tsuka – ele parece ser nobre.

– Vou atendê-lo... – levantei-me – E, por favor, ensine à sua maldita Kamuro como andar direito. Ela já tem dez anos e logo precisa começar a atender os nossos clientes. Não quero que ela passe o resto da vida apenas como sua garota de recados e empregada.

– Sim, senhora – Tsuka baixou a cabeça.

Saí em direção aquele homem que ela dissera.

Assim que cheguei ao salão principal, percebi quem estava lá. O homem era realmente nobre e não era a primeira vez que visitava a casa. Não havia entendido como Tsuka não tinha o reconhecido.

Depois de trocar algumas palavras com ele, eu o enviei a um quarto reservado. Por algum motivo, aquele homem havia se encantado pela Kamuro de Tsuka e, assim, queria ter ela para ele. Pagava-se muito pela primeira vez de uma Yuujo, isto é, uma cortesã do mais baixo nível, que recém havia saído do aprendizado de Shinzo. O problema era que aquela bastarda ainda era uma Kamuro e faltava um tempo para que se tornasse uma Shinzo. Assim, ela não seria uma Yuujo por, pelo menos, mais seis anos.

– Tsuka... – eu a chamei em um canto, junto com sua Kamuro – Estou, hoje mesmo, dando a sua Kamuro o título de Yuujo e já tenho para ela um cliente...

– Mas senhora... – Tsuka ficou visivelmente desconfortável – Ela ainda precisa passar pelo aprendizado de Shinzo... ela não pode ter relações. Ela é muito nova. Ela tem só dez anos.

Não podia perder aquele dinheiro todo.

– Não importa. Ela é agora uma Yuujo. Leve-a ao quarto e a entregue ao cliente – ordenei.

Não me importava nem um pouco se ela era muito nova ou não. Aquela Kamuro não tinha modos e não sabia nenhuma etiqueta. Jamais seria uma Oiran de alto nível. Se pudesse me render algum bom dinheiro naquele momento, já seria de algum proveito.

Tsuka a levou, mesmo contrariada e a largou no quarto. Só me restava esperar para que aquela pequena bastarda agradasse seu primeiro cliente e me pagasse parte do valor pelo qual a comprara de seus pais.

– Não! – ouvimos, depois de um tempo, os gritos do cliente.

Não eram gritos de felicidade, com certeza. Algo de errado estava acontecendo.

Corremos para o quarto e, abrindo a porta vi, deitado sobre a cama, completamente ensanguentado, o nosso cliente nobre. Ao seu lado, a pequena Kamuro, trêmula e nua, com sangue respingado em seu rosto, olhava em choque para a parede. Em seu cabelo, desgrenhado, estava pendurada a pequena jóia de flor de sino que Tsuka lhe dera no primeiro ano em que chegara à nossa casa, em homenagem ao seu nome.

– O que aconteceu aqui? – gritei desesperada.

Ao olhar para a parede, vi uma mulher mais velha, de longos cabelos brancos e olhos azuis, empunhando uma espada que pingava o sangue daquele pobre homem.

– Quem é você? – berrei.

– Você... – ela veio em minha direção – ia permitir que aquele demônio violentasse essa criança?

Senti um frio subir pela minha espinha.

O olhar frio daquela mulher, que, empunhando sua espada vinha para cima de mim, dava-me a certeza de uma morte terrível.

– Por favor, não me mate! – joguei-me em um canto, tomada por um medo terrível.

– Eu a salvei por pura sorte – disse a mulher, enraivecida – e pelo azar desse monstro cuja vida eu já deveria ter tirado há dias. Hoje – ela apontou a espada para mim – eu vou poupar sua miserável vida, mas levarei a pequena comigo.

– Como quiser – disse rapidamente, torcendo para que me deixasse viva.

A mulher abraçou a pequena Kamuro e a levou para fora do quarto, em direção à porta de saída.

Olhei por cima do ombro e vi a bastarda, de olhos arregalados, ainda em choque, levantando sua mão confusa, despedindo-se de Tsuka, sua Oiran.

Tsuka, de olhos cheios de lágrimas, ainda assustada pela cena, abanou de volta enquanto a mulher e a Kamuro sumiam pela porta.

Havia perdido muito dinheiro e, certamente perderia muito prestígio com aquela morte, mas ainda assim eu estava aliviada por ter sobrevivido àquela cena animalesca e brutal.

– Adeus... – Tsuka caiu de joelhos ao meu lado – Suzuhana... – suspirou, despedindo-se de sua Kamuro.

 

 

A Saga Draconiana – Fragmentos Draconianos

TAGS: Dragão, Dragões, Fantasia, Literatura Fantástica, Drakkar

A. G. Olyver


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