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Fragmentos Draconianos N3: A Última Luz do Protetorado


         Havia algo errado, eu podia sentir.

Mesmo andando e sentindo aquelas pedras sob a sola dos meus pés, respirando o ar fresco daquela tarde ensolarada, eu sabia que havia algo errado. Talvez não “errado” no sentido de não dever estar acontecendo, mas de que não era normal. Algo estava diferente no ambiente, no Fluxo Primordial que trespassava meu corpo e meu Ponto Central.

Acordara aquele dia com uma sensação de deslocamento.

Minha última lembrança era de que eu havia ido dormir cedo na última noite, logo depois de ler meu velho Manual do Protetorado, que herdara de minha mãe. Tinha tentado, mais uma vez, transmigrar minha Essência para que pudesse equivaler a Essência Draconiana, para poder dominá-la. Estava há muito tempo no terceiro nível da Palma Servil e, se não conseguisse atingir aquele estado absoluto, não poderia realmente ser uma Protetora por completo.

Dominar o terceiro nível da Palma Servil e me tornar uma Protetora Plena me faria Mestra e, assim, poderia dar continuidade ao Protetorado, abandonado por minha mãe, junto comigo. Nós precisávamos existir. Desaparecermos não era uma opção. O ser humano, sem nosso conhecimento e domínio da Essência Draconiana estaria perdido nas mãos dos Drakkars. Sem ninguém para mantê-los na coleira, seus instintos selvagens e raivosos poderiam levar a humanidade a uma nova era de opressão ou mesmo extinção.

– Tudo bem... – resmunguei – Foi isso que fiz. Então por que tudo parece tão fora do lugar? – perguntei a mim mesma novamente.

Parei de súbito e me sentei. Iria praticar minha meditação ali mesmo. Através da Contemplação eu poderia buscar as respostas mais rapidamente. Direcionada pelo Reflexo eu obteria aquele conhecimento.

Em posição de Contemplação, sentada sob minhas pernas, toquei o céu da boca com a ponta da minha língua para fechar o circuito. Então passei a inspirar fazendo o Fluxo Primordial fluir desde o meu Ponto Central, subindo pela minha espinha em direção ao topo da minha cabeça. Então, ao expirar, fiz o Fluxo descer pela frente do meu corpo de volta até o Ponto Central, completando o círculo. Prossegui assim até que meu corpo começou a entrar em harmonia com o Todo.

Toda aquela técnica havia sido ensinada a mim por minha mãe, antes que desaparecesse no meio da noite, abandonando a mim e ao Protetorado. Felizmente, antes de nos deixar, ela me ensinara tudo o que sabia sobre o Clã dos Protetores e a Palma Servil. O resto, bem, seu Manual do Protetorado me ensinaria.

Durante a Contemplação comecei a sentir uma pressão sobre meu peito e, assim, caindo em um estado de profunda meditação comecei a ter visões.

“– Esse parece muito antigo...” – ouvi no ar como um som fantasmagórico.

“– Quatrocentos e dezoito anos...” – ouvi minha própria voz naquele eco do além.

– Meu Manual – disse pondo-me de pé enquanto percebia que aquelas falas se referiam a ele.

Precisava retornar à minha loja e verificar meu Manual. Fosse o que fosse, a resposta que procurava estava relacionada a ele, como mostrava a visão.

Assim, corri de volta para meu velho antiquário, que me fazia também as vezes de casa, e fui verificar minha prateleira onde guardava meu velho Manual do Protetorado, herança de família que já contava com quase meio século de vida.

– Aqui está... – eu o peguei na mão.

Sua lombada, quase ilegível, trazia, além de outras coisas, o nome da minha família desde os mais antigos tempos: Clã Wu.

Levantei minha cabeça e vi meu rosto refletido no vidro da janela. Tudo parecia normal, ainda que meu cabelo parecesse maior do que me lembrava.

– Preciso cortá-lo de novo... – ri sozinha.

Olhei para a capa do Manual e vaguei pelos meus pensamentos por uns instantes. Sabia que, para transmigrar minha Essência precisava trazer minha mente para o mais absoluto controle intelectual, e, de fato, vinha tentando fazer aquilo diariamente, porém, havia uma única coisa eu ainda não tinha testado; e uma coisa que via minha mãe praticando diariamente.

– É isso... – tive o insight – Preciso...

Fui interrompida pelas batidas apressadas na porta, como se estivessem desesperados.

– Já vou! – gritei, seguindo para a entrada da loja.

Se fosse um cliente, àquela hora, naquele desespero, eu deveria cobrar muito caro por qualquer item que comprasse. Afinal, tudo aquilo que tinha ali eram relíquias de família acumuladas por séculos. Tinha, realmente, um valor incalculável.

– Não estamos abertos ainda... – disse entreabrindo a porta, para ver quem era.

Ao abrir a porta, vi meu velho amigo que tinha, como de costume, desaparecido por alguns dias para vigiar sua protegida em Nova Iorque. Ele trazia em seus olhos azuis um terror que eu não compreendia. Algo nele refletia em mim um medo estranho.

– O que foi, Adrian? – eu perguntei assustada.

– Bo... – ele entrou pela porta – Tem algo errado... – disse.

Ele também havia percebido.


A Saga Draconiana - Fragmentos Draconianos

TAGS: Dragão, Dragões, Fantasia, Literatura Fantástica, Drakkar

A. G. Olyver

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